Do Centro Cívico ao Centro Histórico: Onde a política e a memória se cruzam no asfalto curitibano

Confira a altura

Já parou para notar como o chão que a gente pisa em Curitiba muda de “humor” em menos de dois quilômetros? Se você começar a caminhada pela Praça Nossa Senhora de Salette, no Centro Cívico, seus pés sentem a rigidez do asfalto largo e a imponência das calçadas planejadas para quem decide o destino do Paraná. Mas, conforme você desce a Avenida Cândido de Abreu em direção ao Largo da Ordem, o cenário amolece, o concreto dá lugar à pedra irregular e o silêncio burocrático vira o burburinho da história. Essa transição não é apenas geográfica; é uma viagem no tempo que pouca gente aproveita com o olhar atento que a região merece. O Centro Cívico é um marco. Muita gente não sabe, mas ele foi o primeiro do gênero no Brasil, inaugurado em 1953 para celebrar o centenário da emancipação política do estado.

Ali, a arquitetura modernista de nomes como David Xavier de Azambuja desenha um cenário de poder. O Palácio Iguaçu e a Assembleia Legislativa formam um conjunto que respira solenidade. E, claro, temos o “Olho” — o Museu Oscar Niemeyer (MON). Dica de quem vive a cidade: não olhe para o MON apenas como um museu de arte. Olhe para ele como uma obra de engenharia audaciosa que flutua sobre um espelho d’água. É o ponto preferido dos curitibanos para ver o pôr do sol, estender uma canga no gramado e deixar os cachorros correrem. É onde a política encontra o lazer. Mas a alma de Curitiba, aquela que guarda os segredos dos fundadores e o cheiro do café passado, mora um pouco mais adiante, no Centro Histórico. Quando asfalto vira “pé de moleque” (as pedras irregulares do Largo), você entrou no setor histórico.

Ali, o tempo corre diferente. O Bebedouro de Cavalos, as igrejas centenárias como a da Ordem e a do Rosário, e os casarões coloridos contam uma história de tropeiros, imigrantes e de uma vila que teimou em virar metrópole. O que você não pode deixar de notar no trajeto: O contraste das janelas: No Centro Cívico, elas são grandes, funcionais e sérias. No Largo da Ordem, são estreitas, de madeira e carregam séculos de observação urbana. A energia do domingo: Se você estiver por aqui em um domingo de manhã, essa conexão entre o novo e o antigo ganha uma camada extra: a Feirinha do Largo. É o caos organizado mais charmoso do Sul, onde o artesanato local encontra o pastel de feira. O Memorial de Curitiba: Um prédio moderno encravado no meio do setor histórico que serve como um museu da cidade. A acústica lá dentro é algo que você precisa experimentar.

Muitos turistas cometem o erro de ver essas duas áreas de forma isolada, pegando um carro de um ponto a outro. Minha sugestão técnica como quem conhece cada esquina? Faça esse trecho a pé ou com um roteiro personalizado que permita paradas estratégicas. Existe uma lógica urbana ali. A prefeitura, o tribunal e o palácio de um lado; a igreja, o comércio antigo e a memória popular do outro. É o equilíbrio perfeito entre o que o estado quer ser e o que o povo sempre foi. Se bater a fome no meio do caminho, você está no lugar certo. Enquanto o Centro Cívico oferece opções mais executivas e modernas, o Centro Histórico é o reduto da tradição. É o lugar de provar um barreado legítimo — aquele prato típico do litoral paranaense que subiu a serra e fincou bandeira por aqui. A carne desfiada, cozida por horas em panela de barro, acompanhada de farinha de mandioca e banana, é o combustível ideal para continuar explorando a cidade.